Texto de José Bezerra Lima Irmão
José Bezerra é membro da
Academia de Cultura da Bahia e da
Academia Literária do Amplo Sertão Sergipano.
É autor do livro Lampião - a Raposa das Caatingas.
Link do sumário do livro abaixo - copie e cole no navegador:
http://araposadascaatingas.blogspot.com.br/
Academia de Cultura da Bahia e da
Academia Literária do Amplo Sertão Sergipano.
É autor do livro Lampião - a Raposa das Caatingas.
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A primeira
localidade sergipana visitada por Lampião foi Carira, a 1º de março de 1929.
No mês seguinte,
Lampião voltou a Sergipe, numa incursão rápida por Canindé, Poço Redondo, Monte
Alegre, Boca da Mata (Glória), Saco do Ribeiro (Ribeirópolis), Alagadiço e
Pinhão.A passagem por Poço Redondo foi no dia 19 de abril. O povoado estava em festa – encontrava-se ali o vigário de Porto da Folha, para celebrar missa, fazer casamentos e batizar meninos.
Transcrevo, a seguir, o capítulo 95 do meu livro Lampião – a Raposa das Caatingas, em que faço a descrição desse episódio pitoresco, baseado em Alcino Alves Costa, “O Caipira de Poço Redondo”, autor de Lampião Além da Versão – Mentiras e Mistérios de Angico, O Sertão de Lampião e Lampião em Sergipe. Faço essa transcrição com o propósito de assim contribuir para o registro desse fato da história do cangaço, porém lembrando que é proibida a sua reprodução integral ou parcial sem a autorização prévia do autor.
Lamento que meu dileto amigo Alcino Costa não se encontre mais entre nós para ver este texto, ele que foi meu maior incentivador, meu companheiro de inesquecíveis e aventurosas andanças pelas caatingas de Poço Redondo e Canindé.
“LAMPIÃO
ASSISTE À MISSA EM POÇO REDONDO
O
bando deixou Arrastapé no dia 18 de abril, passou pelas fazendas Riacho e
Malhada da Caiçara, varou pelas caatingas de Santa Brígida e entrou em Sergipe,
indo pernoitar na fazenda Pedra d’Água, perto de Canindé. No dia seguinte, os
cangaceiros acordaram cedo, arrearam os cavalos e tocaram em direção a Poço
Redondo. Embora Lampião já tivesse entrado em Sergipe pelo menos duas vezes,
esse fato era desconhecido
Naqueles
ermos, não havia rádio nem telégrafo, as notícias corriam devagar. Ouvia-se
falar nas estripulias de um cangaceiro chamado
Lampião, mas isso era lá para os lados de Pernambuco ou Paraíba, lugares que ninguém
nem sabia para que lado ficavam, terras tão longínquas que para os matutos era
como se ficassem no estrangeiro. De modo que no Poço ninguém podia imaginar que
o temível cangaceiro se encontrasse em Sergipe, e mais precisamente a caminho
daquele povoado pobre, perdido nos cafundós.
No
dia 19 de abril de 1929, o arraial estava em festa, pois, conforme acontecia
pelo menos uma vez por ano, seria ali celebrada uma missa pelo padre Artur
Passos, de Porto da Folha. O vigário, um homem já velho, ranzinza, malcriado e
mandão, já se encontrava no Poço desde a tarde do dia anterior. Estava
hospedado na casa de Teotônio Alves, conhecido como China, descendente de uma
das famílias fundadoras do lugarejo, os Garra. China, casado com dona Marieta
Alves de Sá, era considerado um homem rico: era dono da fazenda Recurso e tinha
uma bodega no povoado, onde vendia de tudo – jabá, café, açúcar, sal,
pimenta-do-reino, rapadura, cocada, querosene, fumo de rolo, alpercatas,
perfume, remédio e, claro, cachaça.
Naquele
dia, muita gente acordou cedo, ansiosa pela festa. João Cirilo e Miquéias foram
os primeiros a entrar na bodega de China e, para aproveitar o dia, ainda em
jejum, já tinham tomado os primeiros goles de pinga, a fim de limpar o
estômago. Entre uma conversa e outra, escutaram um tropel de cavalos. Quando
olharam, viram uns cavaleiros estranhos vindo pela estrada de Curralinho. Os
cavaleiros pararam em frente à bodega. As roupas sujas de terra indicavam que
aqueles homens não vinham por causa da festa. Apesar de usarem chapéus de
couro, não pareciam ser vaqueiros, pois vaqueiros não carregavam armas, e
aqueles tinham fuzis atravessados nos cabeçotes das selas e deixavam entrever
os cabos de grandes punhais metidos nas bainhas, sobre as vestes suadas. Um
deles adiantou o cavalo, deu bom-dia e perguntou se era ali a casa de China. O
próprio China respondeu ao cumprimento e identificou-se. Então o estranho
apresentou-se, amistosamente, mas sem perder o tom severo do rosto:
–
Munto prazê, seu China! Me dero boas informação sobre o sinhô. Eu sou o Capitão
Virgulino Ferreira, vurgo Lampião.
China
e os companheiros quase caíram para trás com o susto. Dona Marieta, que ia
chegando naquele instante, preocupada com os preparativos da festa, ao ouvir a
terrível revelação pensou logo no padre, que ainda estava dormindo, alarmada
com o que aqueles malfeitores poderiam fazer com ele.
Percebendo
o vexame, Lampião disse que não precisavam ter medo, pois estava ali de
passagem, não iria fazer mal a ninguém, só queria descansar um pouco e comer
alguma coisa. Dito isto, desmontou do cavalo, no que foi seguido pelos outros
cangaceiros.
Enquanto
os homens amarravam os animais nas árvores, China, ainda atordoado com aquela
situação, foi providenciar cadeiras para os recém-chegados. João Cirilo e
Miquéias se prontificaram a ceder seus tamboretes, na esperança de poder cair
fora, mas Lampião mandou que se sentassem:
–
Tem cadera pra todo mundo, rapazes, nun tão veno qui seu China é home
privinido? Fiquem aí!
China
trouxe um banco e algumas cadeiras.
Percebendo
que dona Marieta ainda estava meio atarantada, Lampião voltou a explicar,
falando para o marido:
–
Seu China, diga a sua muié qui ninguém vai fartá cum respeito na sua casa. Diga
a ela qui pegue suas fia, tranque no quarto e bote a chave no bolso.
China,
sabendo por que sua mulher estava tão ansiosa, resolveu expor logo o problema:
–
Sabe o qui é, Capitão, mĩa muié tá munto preocupada purque o vigaro de Porto da
Foia, o pade Artu Passo, tá hospedado aqui na mĩa casa... Ele veio celebrá
missa, vai ter ũa festa hoje im Poço Redondo.
Diante
de tão boa notícia, o rosto austero do Capitão Virgulino se alargou:
–
Mais qui dia de sorte é esse, seu China! Fais tempo qui eu nun vejo um pade! E
cadê ele?
–
Tá durmino...
–
Durmino ainda a estas hora? Apois vamo acordá ele, seu China!
China
e sua mulher trocaram um olhar apreensivo. O padre Artur era notório pelo seu
gênio forte, de homem destemido, acostumado a dar ordens e ser obedecido pelos
matutos daquelas brenhas. Era capaz de querer dar um esbregue também no Capitão.
–
Marieta – disse China, tentando desviar o assunto –, vá prepará um armoço
reforçado pros nossos amigo.
Lampião
deixou que a mulher fosse se desincumbir daquela providência, pois a lembrança
do almoço era uma boa ideia, mas não esqueceu o assunto:
–
Seu China, vamo acordá o pade. Daqui a pouco nóis vai simbora, e eu priciso
sabê qui hora vai sê as reza.
Não
tendo outra saída, China foi até o aposento onde o vigário estava dormindo.
Lampião seguiu atrás. E foi o próprio cangaceiro quem chamou, com voz firme,
mas respeitosa:
–
Seu pade? Ô seu pade? Acorde, home, se alevante, tá na hora do café!...
Supondo
que era China quem chamava, o vigário, que já estava acordado, respondeu,
pachorrento:
–
Já vou, China, já vou. Me desculpe. Eu estava muito cansado da viagem. Já estou
velho. Não aguento mais andar a cavalo. Mas dormi bem, graças a Deus.
–
Quem tá falano aqui nun é China não, seu vigaro – explicou o cangaceiro. – Aqui
quem fala é o Capitão Virgulino Ferreira da Silva, vurgo Lampião!
O
padre Artur, lá de dentro, acabando de vestir-se, admoestou:
–
Que brincadeira é essa, China? Como é que você fala no nome daquele malfeitor,
se comparando com um criminoso tão miserável?
Lampião
não ligou para o insulto e continuou o diálogo:
–
Nun se apuquente não, seu vigaro, mais quem tá falano é Lampião mermo, im carne
e osso...
O
padre Artur Passos nem respondeu, abriu a porta, já aborrecido com aquela
brincadeira estranha do seu anfitrião, que nunca tinha sido de muitas
intimidades, e, quando levantou os olhos, deu de cara com um homem de altura mediana,
queimado de sol, usando um chapéu de couro cheio de espelhos, calçado de alpercatas
de sola, com uma calça meio curta, mostrando as canelas longas e finas. Ao lado
dele estava China, embasbacado, encolhido, e atrás dele dona Marieta, que
segurava o braço do marido, como se nele pudesse encontrar alguma proteção. Foi
ela quem quebrou o silêncio, explicando, como se fizesse as apresentações:
–
Pade Artu, este home chegou aqui agora mermo, dizeno qui é Lampião, mais
garante qui é de pais e nun vai matratá ninguém...
–
De paz o quê, dona Marieta?! – respondeu o padre Artur, cônscio do que estava
acontecendo, pois já tinha ouvido falar que Lampião havia fugido de Pernambuco
–. A senhora já viu criminoso de paz? Seja ou não seja Lampião, um miserável
deste está querendo é desgraçar com todo mundo!
Virgulino
explicou, sem perder a calma:
–
Seu vigaro, a muié de seu China falou certo. Eu tou pur aqui de passage, sou de
pais, nun vou fazê má a ninguém, nun tenho inimigo aqui, e nun vou matratá quem
nun é meu inimigo. O sinhô vai rezá missa?
–
Por que você quer saber se eu vou ou não rezar missa? – perguntou o padre. –
Isso é de sua conta?
–
É qui se fô tê missa eu quiria assisti.
–
Você endoideceu, foi? – exasperou-se o sacerdote. – Pois fique sabendo que um bandido
como você, que vive matando e roubando cristãos, não assiste à minha missa de
jeito nenhum!
–
Pade, eu já diche...
–
Mas eu também já disse, seu bandido atrevido e insolente, que não permito! Na
missa quem manda sou eu! Na casa de Deus, cangaceiro não entra não!
Virgulino
cedeu:
–
Tá bom, seu pade, tá bom. Eu nun vou assisti a missa, já qui o sinhô nun qué.
Vieram
nesse instante avisar que o café estava pronto. China convidou todos para
comer, sem saber como se sairia agora.
O
precavido Lampião cuidou das providências de praxe:
–
Seu China, aqui tem delegacia?
–
Tem não, seu Capitão – respondeu China.
O
cangaceiro pensou um pouco. Falou de seus receios:
–
Ói, vai tê festa hoje. Se o povo subé qui eu tou aqui, adeus festa, corre todo
mundo, nun sei pur quê... Vou tê qui prendê esses dois cabra – referia-se a
João Cirilo e Miquéias –, se não eles vão saí pur aí falano bestera...
China
resolveu o problema: João Cirilo e Miquéias estavam convidados para comer
também.
–
Nun quero cumê não, seu China – disse João Cirilo –, eu tou sem apitite...
–
Deixe de sê besta, home – interveio o Capitão
–, você vai cumê, sim! Nun tá veno seu China cunvidá não?
Providencialmente,
tudo deu certo: o velho padre, sem nenhuma objeção, sentou-se à mesa junto com
os cangaceiros – o Padre Artur, Ministro de Deus, numa cabeceira, e o Capitão
Virgulino, o Rei do Cangaço, na outra cabeceira.
O
clima inicial de confronto havia-se dissipado. Os cangaceiros comeram calados.
O padre, também.
Terminada
a refeição – cuscuz com leite, macaxeira e carne de bode assada –, o padre
Artur falou, como se estivesse dando continuidade a um diálogo silencioso:
–
Virgulino, ouça bem o que eu vou lhe dizer. Como sacerdote, eu sou responsável
pelo povo desta freguesia. Não vou permitir que você maltrate esta pobre gente.
Escute isto: se algum dia você tiver coragem de judiar alguém por aqui, eu
mesmo reúno gente e vou arrancar a sua cabeça, onde você estiver.
–
Nun se avexe não, seu vigaro – respondeu o Capitão. – Tudo o qui eu quero é
sussego. O povo daqui nun tem pur que tê medo deu. O meu poblema é cum os
macaco. Sordados. Eles mataro meu pai im Alagoas. Mĩa mãe morreu de disgosto,
tudo pur causa dos macaco e das oturidade, qui só considera cumo gente quem é
rico. Quano mataro meu pai, eu cheguei a dizê qui se pudesse tocava fogo im
Alagoas. Despois mataro meu irmão do meio, Livino, qui nóis chamava Vassoura. E
despois mataro meu irmão mais véio, Antonho, qui eu chamava Isperança. Agora
dos home só resta treis: eu, João e Zequié,
aquele cabra ali – e apontou o dedo para Ezequiel. – João nun é cangacero, veve
im Propiá, as veis passa uns tempo im Juazero do Meu Padim ou no Piauí, purque
a nossa famia é munto grande, tem gente ispaiada no mundo todo. Eu e Zequié tamo cumprino a nossa sina. Aquele ali tamém
é da famia – apontou para Virgínio.– O apilido dele é Muderno. Era casado cum
mĩa irmã, chamada Angerca, qui morreu de ũa febre braba. O sinhô me chamou de
bandido insulente. Mais eu digo uma coisa, seu pade. Eu nun sou ladrão. Quano
eu quero ũa coisa, eu peço. Se ũa pessoa me ajuda, vira meu amigo. Se peço
dimais e o sujeito me mostra qui num pude dá o qui eu quero, então eu abaxo o
valô. Agora, tem ũa coisa qui eu nun perdoo: é traição! Se o cabra qué sê meu
inimigo, seja! Se nun qué, nun seja! Eu respeito o home qui tem corage! Mais
nun me atraiçoe! Eu nun tulero safadeza, o cabra se fazê de meu amigo na mĩa presença,
mais nas mĩas costa se cunluiá cum os macaco, purque aí eu viro ũa fera, e se
eu pudé pegar o fio da peste!...
–
Olhe as palavras, Virgulino. Basta. Já andei lendo sobre você, conheço as suas
justificativas, sei da morte do seu pai, enfim, toda essa situação. O problema
é como você quer resolver as coisas. Pra tudo neste mundo tem um jeito, homem
de Deus. Você não pode querer impor sua vingança diante do mundo todo, pois
desse jeito a coisa não vai acabar nunca...
–
Só mexo cum quem mexe cum eu.
–
Não estou certo disso, Virgulino. Você precisa parar com essa loucura, precisa
tomar novo rumo na vida.
–
Tá bem, seu pade. Agora, já qui o sinhô me dá esse conseio, eu lhe peço: deixe
eu assisti a missa... É um pidido qui lhe faço...
O
coração do padre Artur amoleceu.
–
Vá. Pode ir. Só não pode é entrar armado na igreja.
Na
sala ao lado, dona Marieta escutava a conversa, apegando-se a todos os santos que
conhecia para que tudo terminasse bem. Ao perceber que não havia mais perigo,
dados os termos do acordo que acabava de ouvir, correu até a casa da vizinha
para contar a novidade. Assegurou à comadre que Lampião era um homem muito
educado.
Num
instante, todo mundo sabia da notícia: Lampião
estava no Poço e ia assistir à missa. Quem pensou em se esconder mudou de ideia
ao ver o padre Artur sair da casa de China são e salvo, e atrás dele os ilustres
visitantes, descontraídos, afáveis, palitando os dentes.
Começava
a chegar gente das redondezas para a missa – gente a pé, a cavalo, em carros de
bois. Ao ouvirem a novidade, a reação de todos era a mesma: assombro, medo,
curiosidade.
Aos
poucos, o povo foi se aproximando, olhando de longe o movimento na casa de China.
João Cirilo e Miquéias estavam bebendo cachaça com os cangaceiros, cheios de
intimidades. Mandaram chamar os amigos, garantindo que Lampião era amigo do Padre
Autur, ninguém precisava ter medo. Uns meninos passaram na frente da bodega e
Lampião jogou moedas para eles. Quando os moleques chegaram em casa com aquele
dinheiro todo, cessaram de vez os receios. “Eta home danado de bom é Lampião” –
diziam.
Na
hora da missa, a igrejinha estava lotada. Mesmo assim, quando Lampião chegou
com seus homens, as pessoas deram um jeito, se espremeram, coube todo mundo. Lá
fora ficou apenas um cabra, de vigia. Mas Lampião não cumpriu a promessa feita
ao padre Artur: estavam todos armados e equipados.
Durante
a celebração, ninguém prestou atenção ao padre. Mesmo os que estavam na frente
davam sempre um jeito de se virar de vez em quando, a pretexto de qualquer
coisa, para dar uma espiada nos cangaceiros. Lampião sabia rezar, ajoelhava-se
nas horas certas, sentava-se ou ficava de pé nos momentos adequados, respondia
até aos “Dominus vobiscum” – coisas que no Poço só dona Marieta sabia.
Depois
da missa, os cabras dirigiram-se à casa de China, e o povo, já familiarizado
com eles, foi atrás, formando-se um ajuntamento em frente à bodega. China não
conseguia dar conta do movimento. Gente que nunca comprou nada em sua venda, de
repente virou freguês.
O
padre Artur estava preocupado. Desde o amanhecer, os cabras estavam bebendo. Cangaceiro
é cangaceiro, ninguém se iluda. Tinha de mandar Lampião embora, antes que
acontecesse uma desgraça. Resolveu deixar os batizados e casamentos para mais
tarde. Depois de tirar os paramentos, foi bater na casa de China. Ao avistá-lo,
Lampião foi ao seu encontro:
–
Mais seu vigaro, veja o sinhô qui dia feliz! Só tá fartano ũa sofona! Cadê esse
tá de Agenô Pitomba?
–
Pois é, Virgulino, é justamente sobre isso que vim lhe falar. Você me disse que
estava de passagem...
Lampião
coçou o queixo, embaraçado. Estava gostando daquele lugar. Depois dos batizados
e casamentos ia ter festa. João Cirilo tinha dito que à noite ia ter um baile
de arromba, o sanfoneiro era Agenor Pitomba. E outra coisa: nunca tinha visto
tanta mulher bonita. Tudo doidinha por folia, que mulher é bicho danado pra
gostar de cangaceiro. Mas, que fazer? Não se desrespeita um padre, pois ai do
vivente que for excomungado por um padre, vai direto pras profundas dos
infernos.
–
Pade Artur, o qui eu prometi ao sinhô eu cumpro. – E, dizendo isso, alteou a
voz: – Mininos, venham se dispidi e pidi a bença ao pade! Zequié, venha cá. Você tamém, Virgino. Cadê o resto?
O
Capitão levou o padre até os outros cangaceiros, que estavam se divertindo
entre o povo, olhando de longe para as mocinhas, como quem não quer nada. No
alpendre de uma casa estavam as filhas de Antônio Marques e de Lé Soares. Uma
das filhas de Lé não tirava os olhos do cangaceiro Mariano. E o cangaceiro
também estava de olho nela. Naquele instante Mariano estava conversando com um
vaqueiro, perguntando quais eram os homens ricos do povoado, além de Julião, um
velho que era proprietário de muitas terras, porém sovina como o diabo. Lampião
apresentou o companheiro:
–
Este aqui, seu pade, é Mariano, cabra bom, anda cumigo fais munto tempo, é fio
dum lugá chamado Afogados da Ingazeira, im Pernambuco, lá pras banda do Pajeú,
o mermo lugá onde nasceu Antonho Silvino, de quem na certa o sinhô já viu falá.
Se dispeça do pade, Mariano.
O
próximo a despedir-se foi um cangaceiro avermelhado, de cabelo claro, feições
firmes:
–
Esse aí é Luís Pedo, seu vigaro. Ele num gosta de apilido. É cuma se fosse um
irmão meu. É tamém de Pernambuco. E aquele ali é da Quixaba, se chamava-se Anjo
Roque e agora é Labareda, derna de onte qui tá
cum nóis. Aquele outo é Zé Furtaleza. Os outos dois são primo, é Curisco e
Arvoredo. E agora venha vê um segipano. Dexei ele pro fim de proposto. É o
premero cabra de Segipe a me acumpanhá. Nóis chama ele de Vorta Seca.
O
padre Artur ficou chocado com o que via. O cangaceiro sergipano não passava de
um menino, um mulatinho de olhos vivos e jeito brincalhão que nem fios de barba
tinha ainda. O vigário perguntou a idade dele.
–
Onze ano – respondeu o garoto.
–
Deus misericordioso!... – balbuciou o velho padre, condoído com tão terrível
desgraça. – Uma criança...
–
Criança!? – contrapôs Virgulino. – Nun se ingane não, pade Artu. Esse muleque,
com essa carinha de besta, tem corage de fazê coisa qui até o diabo duvida!
Nasceu pra sê cangacero!
O
Capitão levantou o rosto, consultando a posição do Sol,
e decidiu que era hora de tomar a estrada. Pegou o apito
que levava amarrado com uma tira de couro à cinta do cantil e soprou forte duas
vezes, chamando os cabras.
–
Vou simbora, pade Artu. Até mais vê. Adiscurpe os mau jeito.
–
Deus o leve, Virgulino. Pense no que eu lhe falei. Arranje um jeito de largar
essa vida. Procure o coronel João Maria, da Serra Negra. Ou o coronel Antônio
Caixeiro, da Borda da Mata. Diga que falou comigo. Eles podem lhe ajudar.
–
Munto obrigado, seu pade.
Enquanto
Lampião ia falar com China, o padre Artur Passos procurou Volta Seca, que já
estava montado, junto com os companheiros. Estava sinceramente preocupado com o
destino daquele pobre menino. Segurando as rédeas do cavalo do garoto cangaceiro,
o padre perguntou:
–
Meu filho, por que você deixou sua família, para seguir essa vida?
–
Eu nun tenho famia. Meu pai agora é Lampião.
–
Você tem certeza de que é essa a vida que quer ter?
Embora
a pergunta fosse feita a Volta Seca, quem respondeu foi Mariano, que estava
perto, escutando a conversa:
–
Ninguém é cangacero purqui gosta, seu vigaro. Nóis nun tem outo jeito não. A
nossa vida é esta.
–
E vocês não têm medo das forças do governo?
–
Medo de macaco? Nóis? Os macaco é qui se pela de medo da gente, home!
A
conversa de Lampião com China foi reservada. O Capitão estava interessado em
coisas práticas. Queria saber se Aracaju ficava longe e se em Itabaiana havia
muitos macacos.
–
Capitão , se o sinhô
tá pensano im ir pro Aracaju, pode mudá de ideia,
purque fica nos confim
do mundo . Tabaiana é a merma coisa. Lá quem manda é o
coroné Dorinha, e a cidade tem mais sordado
do qui gente!
–
Seu China, quem
foi qui diche qui eu quero ir pra Aracaju?
Daqui eu vou é pra
Serra Nega! Agora ,
mudano de assunto , eu
quero qui o sinhô me
conte aí a histora de uma butija qui o sinhô achou.
China
tomou um susto. Até isso tinham contado a Lampião?!
–
Butija, seu Capitão? – perguntou China, se fazendo de desentendido.
–
Me conte a histora da butija, seu China – insistiu o cangaceiro. – O sinhô
achou ou nun achou ũa butija?
–
Ah, sim, a butija... Já lhe falaro disso pro sinhô, é? Foi coisa sem
importança, Capitão. Eu tive um sonho, ũa arma do outo mundo dizeno onde tinha
um dinhero interrado nũa casa véia.
–
E tinha dinhero mermo, seu China? Quanto?
–
Ũa bobage, Capitão. Era ũas mueda do tempo antigo, qui nun circulava mais, nun
valia de nada...
–
Foi isso mermo qui me dichero, seu China. Eu tava só quereno uvi a histora de
sua boca. E agora vou simbora. Diga a dona Marieta qui adiscurpe o trabaio qui
nóis deu a ela. Munto obrigado pur tudo.
–
Eu é qui agardeço, Capitão.
Saindo
do interior da casa, Lampião soprou o apito novamente e dirigiu-se ao cavalo.
Aumentou o alvoroço. As pessoas esticavam-se na ponta dos pés para ver mais uma
vez o Capitão Virgulino, que estava indo embora. As moças apinhavam-se nas
portas e janelas. Dizia-se que Volta Seca tinha dado um de seus muitos anéis a
Mocinha de Dedé, e ela agora mostrava o presente às amigas, que morriam de
inveja.
China
veio falar de novo com Lampião, que já considerava seu amigo:
–
Capitão, gostei munto do sinhô. Se argum dia vosmicê vinhé de novo pur aqui, a
casa tá as suas orde. Se eu nun tivé aqui, tou no terreno. Tenho ũas terrinha
num lugá chamado Recurso, logo aí na saída da rua.
–
Eu já sabia, seu China. Mais é assim qui se fala. Tou veno qui o sinhô é um
cabra macho. Cum certeza vou vortá outas veis aqui. Até mais vê!
O
Rei do Cangaço, imponente em sua montaria, acenou para o povo de Poço Redondo.
Os cangaceiros esporearam os cavalos, fazendo cabriolas, mostrando destreza, e
dispararam a galope pela estrada que ia para a Serra Negra. O povo ficou olhando
o bando se afastar levantando uma nuvem de poeira.
Todos
estavam maravilhados com os modos gentis do Capitão cangaceiro. A partir dali,
os mais velhos teriam muito que contar, muito assunto para os encontros com os
amigos. E os mais novos teriam razões para sonhar de olhos abertos, imaginando
novas perspectivas em suas vidas. Devia ser maravilhoso viver como cangaceiro,
ficar famoso, ter dinheiro, ter mulheres, ser temido e adulado aonde chegasse,
podendo fazer o que quisesse na vida, como Volta Seca, que aos onze anos de idade já era homem!...
Em vez de ir para
a Serra Negra, como dera a entender ao sair de Poço Redondo, logo adiante o
astuto cangaceiro mudou de rumo, pegando a estrada de Monte Alegre.”
* * *
O texto acima,
entre aspas, é reprodução literal do capítulo 95 de Lampião – a Raposa das Caatingas. No capítulo 174, faço
considerações acerca das circunstâncias que levaram Poço Redondo a ser identificada
como “A Capital do Cangaço”.
Cangaceiro era
então a profissão da moda.
Lampião nunca
teve problemas com os habitantes das caatingas de Poço Redondo. Quando ele
dividiu o território de suas operações entre os cabras de maior
confiança , Zé Sereno ,
Mané Moreno, Mariano e Juriti escolheram
como companheiras garotas filhas de Poço
Redondo. A presença desses bandos
na região exerceu influência
decisiva na rapaziada
do Poço, pois é próprio
dos jovens gostar
de aventuras , e o cangaço
era ali
a aventura suprema .
O
caso de Poço
Redondo é especialmente
assombroso . No auge
da era cangaceira , praticamente todos os
moradores do lugarejo e adjacências se envolveram de alguma forma com algum dos bandos
que viviam na área, se não como cangaceiros, pelo menos como coiteiros. Quem entrava no cangaço convidava depois
os irmãos , os primos ,
os amigos . O pequeno
povoado sergipano forneceu para o bando de Lampião mais de 30
cangaceiros , inclusive
um filho
de Julião do Nascimento, o homem mais rico do lugar – Zé de
Julião (José Francisco do Nascimento) tornou-se o cangaceiro
Cajazeira . Poço
Redondo passou à história
como a Capital
do Cangaço .
Muitos
jovens escolhiam o cangaço fascinados pela sugestão de força e poder que
transmitiam com suas armas, símbolos e roupas espalhafatosas.
O
eterno problema
das secas tornava infrutífero
o trabalho nas roças
e penoso o criatório
de vacas. cabras e ovelhas .
Ser vaqueiro significava
ser escravo
dos coronéis e fazendeiros . Muitas pessoas viviam unicamente da caça ,
como seus
ancestrais caboclos .
A profissão mais
atraente era
a de cangaceiro , que
vivia sem trabalhar ,
gozando da mais ampla
liberdade e respeito
– cangaceiro era
respeitado até pelas autoridades ! Naquele clima
de valentia, diz Alcino Costa , “os jovens de quase
todas as famílias viviam encantados,
maravilhados com os grandiosos
feitos da malta
e, embevecidos, sonhavam em pertencer àquele grupo de valentes
e afamados cangaceiros ”.
Diz ele , noutro trecho :
“Dava pena e era
comum naqueles tempos ,
ver pobres meninos , ainda
na puberdade , no desabrochar
da vida , irem aos bandos ,
sem motivos
que justificassem tão
temerária e louca
decisão , para
a companhia de Lampião
e sua malta ”.
E completa noutra parte : “Inocentes rapazes
que jamais
pensaram em ser
fugitivos da lei
e nem sequer
haviam manobrado arma alguma, além de sua inseparável espingarda de
caça”.
Em
Poço Redondo, formou-se uma nova categoria
de coiteiro . Como em cada família havia
um ou vários cangaceiros, é impróprio tachar pejorativamente
aquela imensa parentela de “coiteiros ”. Como
diz Alcino Costa , os moradores do Poço não
escondiam nem protegiam bandidos, mas sim entes que lhes eram caros , filhos
de seu próprio
sangue.
Cangaceiros sergipanos
À
parte os precursores do cangaço – Manezinho da Barra das Almas, Manoel Monte e
outros –, o primeiro sergipano a tornar-se cangaceiro profissional foi Volta
Seca (Antônio dos Santos),
Estima-se
em torno de 30 os cangaceiros filhos de Poço
Redondo. Todos eles entraram para
o bando a partir
de 1934. Eis os principais:
♦
Alecrim
(José Rosa ), irmão
de Moeda e primo
de Sabonete e Borboleta ;
♦
Beija-Flor
(Alfredo Quirino), filho de Quirino da Lagoa do Boi ;
♦
Bom
de Vera (Luís Caibreiro), filho de
Antônio Caibreiro;
♦
Borboleta
(João Alves da Silva – João Rosa, antes de ser cangaceiro), filho de Antônio Rosa ,
da Guia; irmão de Sabonete
e primo de Alecrim
e Moeda ;
♦
Cajarana (Chico Inácio), filho de Inácio Vítor, nascido na fazenda
Guia ;
♦
Cajazeira
(Zé de Julião – José Francisco do Nascimento), filho de Julião do Nascimento e Constância do Nascimento;
♦
Canário
(Bernardino Rocha ), filho
de Cante e Maria das Virgens ;
♦
Coidado (Augusto Brazinho), filho de Zé
Brazinho;
♦
Correnteza;
♦
Cravo Roxo (Serapião), filho
de Mané Gregório;
♦
Delicado
(João Batista, João Mulatinho – apelido de família), irmão
de Adília, mulher de Canário ; filho de Antônio Mulatinho e Maria Madalena;
♦
Demudado (Zé
Neco), filho de Neco Camburanga e Babu;
♦
Diferente
(Manoel Gomes Nascimento), filho de Mané Grosso ;
♦
Elétrico (Manoel de Miguel), filho de Pedro Miguel;
♦
Gorgulho;
♦
Lavandeira, filho de Virgem de Pampa;
♦
Marinheiro
(Antônio Paulo de Sousa), filho de Paulo
Brás São Mateus; irmão dos cangaceiros Mergulhão
e Novo Tempo ,
e de Cila, mulher de Zé Sereno ;
♦
Mergulhão
(Gumercindo Paulo de Sousa), filho de
Paulo Brás São Mateus; irmão dos cangaceiros
Marinheiro e Novo
Tempo , e de Cila, mulher
de Zé Sereno ;
♦
Moeda
(João Rosa ), irmão
de Alecrim e primo
de Sabonete e Borboleta ;
♦
Novo Tempo (Manoel Paulo de Sousa, Du – apelido de
família), filho de Paulo Brás São Mateus; irmão
dos cangaceiros Marinheiro
e Mergulhão , e de Cila, mulher de Zé Sereno ;
♦
Penedinho (Teodomiro dos Santos –
Teodomiro de Calu, apelido de família), filho
de Mané Pequeno
e Calu; primo de Adília, mulher de Canário;
♦
Ponto Fino (José Celestino – Zé Miúdo), filho
de Pedro da Guia; irmão de Quina-Quina;
♦
Quina-Quina (Jonas Celestino), filho de Pedro da Guia; irmão
de Ponto Fino (não confundir esse Quina-Quina com
aquele que morreu em Maranduba);
♦
Sabiá
(João Preto, apelido de família de João Alves dos Santos), filho
de Zeca Bié e dona Maria Antônia (irmã
de China, sogro do escritor Alcino Alves Costa);
♦
Sabonete
(Manoel Alves da Silva – Manoel Rosa, antes de ser cangaceiro), filho de Antônio Rosa ,
da Guia; irmão de Borboleta
e primo de Alecrim
e Moeda (não se deve confundir esse Sabonete com aquele que morreu em Maranduba);
♦
Xexéu;
♦
Zabelê (Manoel Marques da Silva), filho de Antônio Marques da Silva e Maria Madalena de
Santana; tio do escritor Alcino Alves Costa;
♦
Zumbi
(Angelino), filho de Mané Roberto, nascido na fazenda
Guia.
Quanto
às mulheres nascidas em Poço Redondo que participaram do cangaço, sabe-se das
seguintes:
♦
Adelaide, primeira
mulher do cangaceiro
Criança; filha de Lé Soares e irmã de Rosinha, companheira
de Mariano ; prima de Áurea, mulher de
Mané Moreno;
♦
Adília, mulher
de Canário , irmã do cangaceiro
Delicado ; prima do cangaceiro Penedinho;
♦ Áurea (Maroca, apelido de família), companheira do cangaceiro
Mané Moreno; filha
de Antônio Nicácio; prima de Adelaide (de Criança) e Rosinha (de Mariano);
♦ Cila (Hermecília Gomes de
Sousa, vulgo Cila Paulo, que ao largar o cangaço passou a se chamar Ilda
Ribeiro de Souza, vulgo Sila), companheira
de Zé Sereno; filha de Paulo Brás São Mateus; irmã dos cangaceiros Marinheiro ,
Mergulhão e Novo
Tempo;
♦
Dinda, companheira
do cangaceiro Delicado ;
♦
Enedina, casada
(legalmente ) com
o cangaceiro Cajazeira ,
filha de Manoel Saturnino ;
♦
Maria, companheira de Pancada;
♦
Rosinha, companheira
do cangaceiro Mariano ,
filha de Lé Soares; irmã de Adelaide, primeira mulher
do cangaceiro Criança; prima de Áurea,
mulher de Mané Moreno.
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Sobre esses fatos, expostos aqui em apertada
síntese, leia os capítulos 95 e 174 de Lampião – a Raposa das Caatingas:
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